
Outro dia...disse que falaria ainda da D.Luzia...
Então, todos os dias à tarde, quando estava na janela, via uma senhora loura, bem maltrapilha, passar com um saco nos ombros e sacolas nas mãos. Junto dela ia um pequeno garoto, magro, roupinhas velhas, e ela me comprimentava tão sorridente como se me conhecesse há anos...
Um dia de muito calor, ela veio até meu portão, e pediu-me um copo com agua.
Mandei minha filha abrir o portão do jardim, fui a geladeira, peguei uma garrafa com agua levei até a janela.
Ela tomou um copo de agua muito educadamente, depois deu um copo ao filho, e perguntou-me se poderia tomar outro...; Repondi que sim, e foi ai que reparei naquele rosto tão lindo, mas tão queimado de sol, todo sujo! Os olhos de um azul quase único, e os cabelos amarrados, davam pra gente ver que um dia tinha sido muito, mas muito bonito...
Perguntei a ela de onde vinha, tão cansada, tão queimada de sol e tão carregada!
Ela me disse que tinha muita vergonha em me dizer, mas que vergonha era "roubar", e ela não, ela vinha todos os dia buscar comida no lixão da cidade, que ficava longe, bem longe da minha casa, mas que só era metade do caminho que ela percorria.
Fiquei atônita, mas tentei disfarçar, pra que ela não visse a tristeza que aquelas palavras me causaram...Com aquele rosto sofrido os olhos vermelhos da poeira que enfrentara ela me fitou por alguns segundos e depois se foi.
Nesse dia, uma linda amizade começou, e todas as tardes que ela por ali passava, quase que automaticamente, minha filha descia e abria o portão, para que ela tomasse seu copo com agua, e as vezes até um cafezinho de garrafa térmica.
Ali ficávamos um bom tempo, até que ela dizia que já tinha descansado, conversado, e agora iria seguir ser caminho.
Com o coração partido, eu ficava da minha janela olhando aquela pobre mulher se afastar, levando não só o peso de tudo que carregava, mas tambem o peso de uma vida cruel, e muito sofrida.
Daqui pra frente, vou contar um pouco dessa grande mulher, de aparência fragil, mas uma gerreira, como poucas!
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